Ex-Ministro Antonio Palocci abre o jogo e acusa Lula e Dilma

Antonio Palocci, ex-ministro dos governos Lula e Dilma, disse na quarta-feira (7), em depoimento ao Juiz Federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância, que o pré-sal financiaria o projeto do PT no poder.

Segundo Palocci, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a ele que o pré-sal “é o passaporte do Brasil para o futuro” e que “vai pagar as contas nacionais, vai ser o grande financiador das contas nacionais, dos grandes projetos do Brasil”.

O ex-ministro depôs no inquérito que apura o pagamento de R$ 12 milhões de propina da Odebrecht para Lula na forma de um apartamento e na compra de um terreno onde seria construída a nova sede do Instituto Lula.

A defesa de Lula diz que Palocci fez “acusações falsas e sem provas” enquanto negocia delação com Ministério Público.

O depoimento

 

O juiz Sérgio Moro voltou a questionar Palocci sobre o conhecimento de Lula a respeito da corrupção na Petrobras. O ex-ministro, então, detalhou o plano do ex-presidente para usar os recursos do pré-sal no financiamento da campanha de Dilma Rousseff à presidência.

“Voltando onde nós encerramos na última parte, o senhor mencionou que o senhor ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha conhecimento da corrupção na Petrobras. Mas, aí, o senhor mencionou que ele teria orientado a aumentar a reserva partidária, o senhor pode esclarecer melhor?”, perguntou Moro.

“Posso. Ah, em meados de 2010, talvez nesse mesmo período que nós estamos tratando, ele me chamou para uma reunião na biblioteca do Palácio do Alvorada, eu era deputado. Nessa reunião, estava José Sergio Gabrielli [ex-presidente da Petrobras], eu e a ministra da Casa Civil, presidente Dilma. Nesse momento, ela já era candidata. Talvez, não aprovada ainda em convenção, mas já era definida como candidata, era pacífico isso”, relatou.

“O presidente falou, foi a primeira vez que ele falou dessa maneira tão direta. Mas ele falou: ‘Olha, eu chamei vocês aqui porque o pré-sal é o passaporte do Brasil para o futuro, é o que vai nos dar ener… combustível pra um projeto político de longo prazo no Brasil. Ele vai pagar as contas nacionais, vai ser o grande financiador das contas nacionais, dos grandes projetos do Brasil. E eu quero que o Gabrielli faça as sondas pensando neste grande projeto para o Brasil. Mas o Palocci está aqui, Gabrielli, porque ele vai lhe acompanhar nesse projeto pra que ele tenha total sucesso e pra que ele garanta que uma parcela desses projetos financie a campanha dessa companheira aqui, Dilma Rousseff, que eu quero ver eleita presidente do Brasil'”, acrescentou.

“Então, ele encomendou pro Gabrielli que, através das sondas, pagasse a campanha da presidente Dilma em 2010, obviamente pedindo às empresas os valores que seriam destinados à campanha”, finalizou Palocci a Moro.

Palocci disse que, até então, nunca tinha visto Gabrielli participar de qualquer ato ilícito. Por essa razão, ele teria procurado o ex-presidente da Petrobras, para oferecer uma ajuda que não foi aceita. “Eu perguntei a ele se ele queria, vou ser bem franco aqui, se ele queria que eu operasse com algum diretor da Petrobrás, com Renato Duque ou com outros, pra fazer, desenvolver a encomenda do presidente, e ele ficaria fora disso, ele disse que não, que ele trataria, o presidente mandou ele tratar e ele trataria”, afirmou.

Conforme o ex-ministro, Gabrielli não conseguiu atender ao pedido. Segundo Palocci, a margem de lucro das empresas nacionais nesse caso foi muito reduzida, o que inviabilizou a possibilidade de solicitar repasses para a eleição. Ele disse que apenas companhias estrangeiras fizeram os pagamentos.

“Não havia nenhuma margem pra contribuição, era claro isso pra mim e pra ele. Ele me colocou isso e pra mim tava claro que nada ia acontecer ali de ilícito, de ilícitos mesmo, em forma de, em termos de, vamos dizer de fazer o pagamento, ilícito já era o processo. (…) As empresas estrangeiras pagaram ao Vacari. Porque, porque as empresas estrangeiras vinham com a sua curva de aprendizagem e conseguiam fazer no Brasil não com a mesma curva construída no seu país de origem mas com um ganho de tecnológico e de experiência muito maior”, disse.

Palocci também foi questionado sobre outros assuntos e respondeu a todas as perguntas. Ele disse:

  • Que Lula tinha um “pacto de sangue” com Emílio Odebrecht que envolvia um “pacote de propina”: um terreno para o Instituto Lula, o sítio para uso da família do ex-presidente, além de R$ 300 milhões, e que Lula sabia que se tratava de dinheiro sujo.
  • Que as propinas foram pagas pela Odebrecht para agentes públicos “em forma de doação de campanha, em forma de benefícios pessoais, de caixa um, caixa dois”.
  • Que foram pagos R$ 4 milhões da Odebrecht para o Instituto Lula.
  • Que ele e Lula tentaram atrapalhar os trabalhos da força-tarefa da Lava Jato.

 

Palocci está preso desde setembro do ano passado e já tem uma condenação a 12 anos de prisão na operação Lava Jato. Depois do depoimento, ele foi levado de volta à carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, onde segue preso.

Pacto de sangue e ‘pacote de propina’

 

Palocci contou a Moro que no final de 2010, quando o mandato de Lula estava chegando ao fim, Emílio Odebrecht procurou o ex-presidente para fazer um pacto que envolvia um “pacote de propinas”. Segundo Palocci, a empresa “entrou num certo pânico” com a posse da presidente Dilma.

“Foi nesse momento que o dr. Emílio Odebrecht fez uma espécie de pacto de sangue com o presidente Lula. Ele procurou o presidente Lula nos últimos dias de seu mandato e levou um pacote de propinas”, disse.

“Envolvia esse terreno do instituto, que já estava comprado e o seu Emílio apresentou ao presidente Lula. O sítio para uso da família do presidente Lula, que estava fazendo a reforma em fase final, e que ele disse ao presidente Lula que já estava pronto. E também disse ao presidente Lula que ele também tinha à disposição dele, para o próximo período, para ele fazer as atividades políticas dele, R$ 300 milhões”, detalhou Palocci.

Palocci afirmou que, no dia seguinte de manhã, Lula o chamou no Palácio do Alvorada e contou sobre a reunião com Emílio Odebrecht. O ex-ministro disse que as relações da empresa com os governos de Lula e de Dilma eram “bastante intensas”.

“Queria dizer que a denúncia procede e que os fatos narrados nela são verdadeiros. Eu diria apenas que os fatos narrados nessa denúncia dizem respeito apenas a um capítulo de um livro um pouco maior do relacionamento da empresa em questão, da Odebrecht, com o governo do ex-presidente Lula, com o governo da ex-presidente Dilma, que foi uma relação bastante intensa, bastante vantagens à empresa, propinas pagas pela Odebrecht para agentes públicos, em forma de doação de campanha, em forma de benefícios pessoais, de caixa um, caixa dois”, afirmou.

Dinheiro e terreno para instituto

 

Palocci disse a Moro que pediu para Marcelo Odebrecht dinheiro para cobrir um buraco nas contas do Instituto Lula. “Em 2012, 2013, eu volto a tratar de alguns recursos a pedido do ex-presidente Lula. Tem um episódio, que o Marcelo relatou, que é verdadeiro. É um pedido que eu fiz a ele, de R$ 4 milhões pro Instituto Lula. Isso é verdade.”

“Acho que foi meio para o final de 2013, começo de 2014. Ele [Paulo Okamotto, presidente do instituto] tinha um buraco nas contas, me pediu para arrumar recursos. Eu fui ao Marcelo Odebrecht. Eu ia viajar para o exterior, ele disse que precisava com muita urgência. A ideia dele era que eu procurasse várias empresas. Eu disse: ‘Não posso, vou procurar só o Marcelo’. Pedi R$ 4 milhões”, detalhou o ex-ministro a Moro.

“O Marcelo concordou em dar, falou que tinha disponibilidade. Pedi ao Brani [Branislav Kontic, ex-assessor de Palocci] para transmitir ao Paulo Okamotto que seriam dados os R$ 4 milhões que ele havia pedido.”

Palocci afirmou ainda que teve uma conversa com o ex-presidente sobre um terreno que a Odebrecht iria comprar para ser a nova sede do Instituto Lula.

“Eu voltei a falar com ele [Lula] sobre o prédio do instituto. Falei da minha conversa com o Bumlai e falei: ‘eu não gostaria que fizesse desse jeito. Se o senhor está fazendo um instituto para receber doações e fazer sua atividade, não sei porque procurar agora um terreno. Não tem problema nenhum receber uma doação da Odebrecht, mas que seja formal ou que, pelo menos, seja revestida de formalidade'”, afirmou.

Eu até comentei com ele nesse dia: ‘nosso ilícito com a Odebrecht já está monstruoso. Se nós fizermos esse tipo de operação, nós vamos criar uma fratura exposta desnecessária'”, disse Palocci a Moro.

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