Lançado em noite de gala o primeiro filme da Lava-Jato em Curitiba

CURITIBA – Do outro lado do corredor do Park Shopping Barigui dava para sentir o perfume dos convidados da noite de pré-estreia do filme “Polícia Federal – A Lei é para Todos”, em Curitiba, nesta segunda-feira. Clientes observavam a movimentação atípica de cinegrafistas e fotógrafos, enquanto a elite do Judiciário Federal curitibano chegava à sessão do primeiro filme da Lava-Jato.

 

Nesta noite, o longa ocuparia as oito salas do complexo, mas juízes, delegados e elenco do filme tomariam apenas uma delas, justamente a mais cobiçada, onde se sentariam mais tarde, na companhia das mulheres, os juízes de Curitiba, Sergio Moro, e do Rio, Marcelo Bretas, na primeira aparição pública traduzida em apoio mútuo, como dupla.

 

– Se jogarem uma bomba na sala 5… imagine o luto. Deve ser por isso que a pulseirinha é preta – brincava em uma rodinha de colegas o juiz Marcos Josegrei da Silva, o segundo mais pop da Justiça Federal em Curitiba, à frente de operações como “Hashtag” e “Carne Fraca”.

 

Uma hora antes da sessão, boa parte do elenco circulava entre jornalistas de política e cobertura criminal convidados pela produção do longa.

 

– Cada delegado que aparece no filme, na verdade, é a junção de vários delegados – apressava-se em explicar o ator Bruce Gomlevisky, cujo personagem é idêntico ao delegado da vida real Márcio Anselmo, um dos principais nomes da Lava-Jato.

 

Antonio Calloni – O ator interpreta Ivan, personagem inspirado no delegado Igor de Paula. Ele é retratado como um delegado competente. É um dos principais investigadores da Lava-Jato e narrador do filme. Segundo a produção, ele não acredita em heróis, e sim em “figuras fundamentais para a operação”.

 

Bruce Gomlevsky – Bruce Gomlevsky vive o delegado Júlio Cesar, inspirado no delegado da Polícia Federal Márcio Anselmo. É bastante próximo da delegada Beatriz (Flávia Alessandra). É um dos “mocinhos”, sendo retratado como um profissional transparente e esforçado.

 

Ary Fontoura – O ator interpreta o ex-presidente Lula. Uma das cenas rodadas recria a sua condução coercitiva pela Polícia Federal, em março de 2016.

 

Marcelo Serrado – Marcelo Serrado vive Sergio Moro, juiz que que ganhou notoriedade internacional por estar no comando do julgamento dos crimes identificados na Operação Lava-Jato. Para uns (incluindo o ator), é um herói nacional. Outros o acusam de parcialidade.

 

João Baldasserini – Segundo os produtores, Vinicius, interpretado por João Baldasserini, é uma fusão de “várias figuras importantes da operação”, mas a principal inspiração veio do delegado Maurício Moscardi, coordenador da Lava-Jato na Polícia Federal.

 

Flávia Alessandra – A atriz vive a Bia, inspirada na delegada Érika Marena. De acordo com os produtores, ela dá voz “a todas as mulheres que fazem a diferença na polícia”.

 

Leonardo Medeiros – Leonardo Medeiros interpreta um “importante empresário envolvido na Operação lava-Jato”. Sim, é ele mesmo: Marcelo Odebrecht. Na vida real, foi condenado a 19 anos de quatro meses de prisão, em regime fechado.

 

O ex-presidente Lula parece ser o alvo mais nítido de “Polícia Federal – A Lei é para todos”. Mas elenco e diretor negavam que fosse essa a intenção.

– É um filme que fala sobre a Lava-Jato. Não é um filme contra o PT, contra o PSDB. Não é um filme contra ninguém – diz Calloni.

O diretor Marcelo Antunez rechaçou a ideia de viés político-partidário:

– A questão da corrupção não vem de agora, isso é óbvio, só não enxerga quem não quer. É um problema que nós convivemos com ele, infelizmente desde que o Brasil foi descoberto.

Ele citou o recorte cronológico do filme, que foi até março de 2016, como responsável por percepções equivocadas. E promete mais dois longas sobre o tema.

– Até março, poucos partidos que estavam ligados vieram à tona. Logo na sequência outros partidos vieram. É muito claro que este não é um problema do PT. De longe, acho que isso é um problema da política.

Conduzido sem o apoio de leis de incentivo, o filme é obra de um investimento de R$ 16 milhões dividido entre duas dezenas de investidores ocultos.

– Posso dizer que são pessoas físicas do circuito Rio e São Paulo. Não há empresas – limitou-se a dizer o produtor Tomislav Blazic.

Quinze minutos antes da sessão, Moro e Bretas chegaram juntos pelo tapete vermelho e evitaram dar entrevistas. Sentados lado a lado, já instalados na sala 5, beberam refrigerante no canudinho.

Os dois se conheceram há dois anos, quando o juiz carioca viajou a Curitiba para se inteirar sobre a Lava-Jato e receber material extra de processo desmembrado para o Rio a pedido do Supremo Tribunal Federal (STF). Uma relação de confiança se solidificou.

O procurador do Ministério Público Federal (MPF), Deltan Dallagnol, chegou e encontrou a mulher Fernanda Dallagnol, em rara aparição pública e cercada por amigas.

– Um filho nascendo, sensacional! – entusiasma-se o procurador ao ser apresentado à mulher de um conhecido que está na plateia.

Duas fileiras atrás, Nereus Milaneze, de 81, provoca antes mesmo do filme começar, dizendo que “a narrativa do PT são as pós-verdades”.

– Meu filho é delegado, o Sergio Moro já foi lá em casa várias vezes. Sempre foi simpático, mas sem muita intimidade, com aquela reserva, o sorriso pequeno – descreveu o professor aposentado, pai de Roberto Milaneze, à frente do gabinete da Secretaria de Segurança Pública do Paraná.

Moro tem semblante sério na descrição do pai do amigo ou como personagem do filme, onde não esboça sorriso. Na vida real, antes da sessão de cinema, parece à vontade, acenando para colegas de jurisdição.

Depois de um breve discurso de produtor e diretor, o filme começa com um preâmbulo sobre a corrupção “que chegou no país nas caravelas de portugueses” .

“Desde que existe a caneta existe a corrupção”, e mais: “o poder está em quem assina, para o bem o para o mal”.

A sala 5 vai abaixo quando o japonês da federal real aparece fazendo uma ponta no filme. As risadas também aparecem quando Ary Fontoura imita pela primeira vez a voz característica do ex-presidente Lula.

O filme busca ser didático. Tanto na explicação sobre engenhosos crimes financeiros, quanto na luta contra ser rotulado a favor de A ou B.

– Quem vai mudar o Brasil não é a Lava-Jato. São as milhões de pessoas indo às ruas, votando e decidindo em qual rumo vão levar o país. E quando me perguntam quando isso tudo vai acabar, quem falou em acabar? Nosso trabalho está só começando – diz o personagem principal.

 

 

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